Palavras de fim de semana e de solenidades

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Por DEONÍSIO DA SILVA

Professor federal aposentado da UFSCar e Professor Titular Visitante da Universidade Estácio de Sá

Você encontra certas pessoas com muita frequência nos estádios, nos restaurantes, nos cafés etc. Encontra-as também no cinema e no teatro? E em bibliotecas, museus, vernissagens, concertos?

Raramente coincidem essas presenças. Quem vai muito aos primeiros eventos, vai pouco aos segundos e menos ainda aos terceiros. E vice-versa, naturalmente, do contrário as pessoas se encontrariam mescladas, pelo menos algumas vezes, nesses eventos, de tal modo que fosse impossível concluir que quem sempre vai a cafés e a estádios vai menos a restaurantes, ao cinema ou a algum concerto.

Pois com as palavras dá-se algo semelhante. Milhares delas aparecem em placas, nos jornais, nas redes sociais e no dia a dia: pague, pegue, deposite, aplique, curtir, compartilhar. Outras aparecem apenas em igrejas ou em templos: orar, tribulação, remissão, encosto.

Há aquelas que parecem privativas do Direito e do Judiciário, em fóruns e em tribunais, no mundo jurídico enfim, sobretudo algumas que jamais são traduzidas do Latim: habeas corpus,  data venia, data maxima venia, ex positis. Sem contar ouyras, mais específicas, privativas de tribunais superiores: repilo, determino, rejeito, veemência, náusea, quadrilha.

Há outras que são ouvidas apenas em solenidades: preclaro, excelentíssimo, eminente, douto. Nos parlamentos, de repente sobrevieram, substituindo saudações, apostos e vocativos, palavras de semântica ofensiva: fascista, nazista, autoritário, vagabundo.

Pois com pessoas, roupas, palavras e expressões ocorre algo semelhante na Semana da Pátria. Palavras jamais pronunciadas ou lidas durante o ano inteiro são ditas e cantadas nas solenidades cívicas, sendo cívica, aliás, uma delas.

No reino das palavras, o Brasil ficou independente num sábado, e Dom Pedro, de apenas 23 anos, passou de príncipe a imperador naquele fim de semana.

Rei era pouco para Dom Pedro I. Já tínhamos o rei da cocada preta e o rei do bacalhau. Ele preferiu imperador, cuja origem remota lembra que em momentos de crise, desde a Roma antiga, surge um mandachuva que empolga o poder militar, político e religioso e se autodenomina, sendo depois reonhecido pelo Senado, imperador.

De que imagem nos lembramos quando falamos ou ouvimos algo sobre este imperador, a Independência do Brasil e o Grito do Ipiranga? Provavelmente do quadro famoso do pintor paraibano Pedro Américo, que representou o soberano de uniforme e montado num cavalo. Mas o príncipe estava à paisana e montado num burro.

O sucesso do cancioneiro cívico deve mais a estas versões, às bandas e às músicas do que às letras, que, aliás, poucos entendem. E o sucesso das bandas começou nos campos de batalha e dali migrou para os desfiles militares, modo solene de celebrar conquistas obtidas nas lutas contra o inimigo.

Nos hinos, porém, o importante não é o que aconteceu, é o que se disse do que aconteceu. O Hino Nacional, com letra do fluminense Joaquim Osório Duque Estrada, que foi professor no famoso Colégio Pedro II, no Rio,  e música do carioca Francisco Manuel da Silva, é o preferido nas solenidades, mas na Semana da Pátria tem primazia o Hino da Independência do Brasil, letra do carioca Evaristo da Veiga e Barros, então com 23 anos, e música do português de Queluz, Dom Pedro I, que a compôs aos 24 anos.

Os primeiros versos dizem: “Já podeis da pátria, ó filhos,/ ver contente a mãe gentil/ já raiou a liberdade/ no horizonte do Brasil”.

“Pátria” tem o mesmo étimo de “pai”, do latim pater (como em “padrinho” e “patriota”), mas é apresentada como “mãe”, do latim mater (étimo presente em “maternidade”, “comadre” etc..

Mas para quem o Brasil tornou-se “mãe gentil”, em 7 de setembro de 1822, às margens do riacho Ipiranga em São Paulo? Os negros continuaram escravos até 1888, mesmo depois de se tornarem heróis na Guerra do Paraguai.

O Grito do Ipiranga foi retomado na letra do Hino Nacional, durante décadas executado sem letra, apenas com música. “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heroico o brado retumbante / E o sol da liberdade em raios fúlgidos / Brilhou no céu da pátria nesse instante”.

O autor trocou “naquele” por “nesse” por razões de metro. Logo na abertura, um cacófato: “heroico o brado” (que soa “herói cobrado”) e uma inversão estranha ao falar brasileiro, que prefere começar as frases com o sujeito, não com o verbo.

A confusão aumentou quando em alguns documentos o Hino Nacional trouxe crase sobre o artigo “as”, deixando o verso sem sujeito, pois o autor quis dizer que as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico.

Registremos também que o Brasil foi descoberto num domingo e prefere o fim de semana para mudar tudo: a Independência deu-se num sábado, a Abolição num domingo e a proclamação da República numa sexta-feira.

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