O uso das redes sociais em tempos de pandemia

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A exposição dos sentimentos nas redes sociais é realidade ou dramatização? Renata Mafra Giffoni, coordenadora de Psicologia da Estácio Belo Horizonte, faz análise

Em entrevista, Renata Mafra Giffoni, coordenadora de Psicologia da Estácio Belo Horizonte, fala sobre o conjunto de incertezas vividas durante a pandemia e a percepção de fragilidade da vida humana. “Os sentimentos desencadeados por essa situação estão além da tristeza, são mais profundos do que o medo, são o equivalente ao sentimento de ‘terror’ descrito por Freud. Para Freud, o terror ‘é o nome que damos ao estado em que alguém fica quando entrou em perigo sem estar preparado para ele’. Aprender a lidar com o incerto exige de nós posições de mais humildade frente à vida, frente ao outro e nos conduz a uma nova era”, declara Renata.

A especialista avalia de que forma a exposição dos sentimentos na vida das pessoas atualmente, sejam eles positivos ou negativos, está impactando os usuários das redes sociais, especialmente. “Depositamos boa parte da nossa felicidade e do nosso movimento na vida em atender a essa expectativa dos outros. Há um movimento de atendimento a essa expectativa em ambos os lados: de quem segue e de quem é seguido. De quem deixa ou não os likes e de quem recebe ou não os likes”, comenta.

Confira entrevista completa!

Na sua opinião, qual é o impacto dessa exposição dos sentimentos, sejam eles positivos ou negativos, na vida das pessoas atualmente, tanto para quem está publicando como para quem está seguindo, lendo, absorvendo tal informação?


Historicamente somos a sociedade da informação, inaugurada pelo advento da Internet nos anos 1990. Vivemos no tempo da abundância e do excesso de informações. Esse tempo precede a pandemia e já gerava uma sobrecarga e um estresse mental. Administrar as fontes, a quantidade, a qualidade, a veracidade, o tempo de exposição à informação é algo pelo qual estamos em processo de desenvolvimento e aprendizagem.  

É necessário destacar fortemente que estamos vivendo um tempo diferente na história dessa geração. A sociedade do conhecimento foi atropelada pelo “desconhecido”. Estamos sendo profundamente marcados pela pandemia do coronavírus e essa geração nunca viveu algo de tão “terrível”. Todas as certezas vividas antes da pandemia, expressas no modo de vida das sociedades – capitalista, consumista, egocentrada, individualista, convicta de suas certezas e da invencibilidade – estão dando lugar a um conjunto de incertezas e à percepção de fragilidade da vida humana. Quem publica e quem assiste está no mesmo barco do terror. 

No que se constitui esse momento, qual o efeito desse tempo pandêmico? É um efeito “tissunâmico”, que era inimaginável há cerca de dois anos. Esse vírus nos lança numa condição ímpar de estar lidando com um elemento desconhecido, intangível, que não sabemos exatamente como ele age, como se pega, como se livra dele e que causa a morte de centenas de milhares de pessoas a nossa volta. Ele faz com que mudemos radicalmente nosso modo de viver, de trabalhar, de estudar, de se relacionar e de circular na cidade. Os sentimentos desencadeados por essa situação estão além da tristeza, são mais profundos do que o medo, são o equivalente ao sentimento de “terror” descrito por Freud. O medo é uma emoção básica, importante como mecanismo de sobrevivência, e sentimos medo diante de um perigo definido, de um objeto preciso. Para Freud (1920), diferente do medo, o terror “é o nome que damos ao estado em que alguém fica, quando entrou em perigo sem estar preparado para ele”. Aprender a lidar com o incerto, com o intangível, exige de nós posições de mais humildade frente à vida, frente ao outro e nos conduz a uma nova era. 

Você conseguiria diferenciar/esclarecer o que poderia ser considerado um sentimento real e o que é a dramatização de uma determinada questão?

O que é o real e o que é dramatização? Dramatizar é mentir? É exagerar?  É encenar? É uma forma de elaborar o sofrimento? De atrair as pessoas? De estabelecer trocas afetivas, financeiras, de vaidade? Freud, em 1805, ao acolher em tratamento as histéricas, discordou dos médicos da sua época que as rejeitavam por acreditarem que elas simulavam sintomas e teatralizavam o sofrimento. Percebeu nelas o sofrimento por trás dos seus sintomas e considerou o sofrimento psíquico, com o mesmo merecimento de cuidados, assim como o sofrimento físico. 

É difícil mensurar o sofrimento humano. Já dizia o poeta Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é […] Você diz a verdade, e a verdade é o seu dom de iludir”. Quem é que vai dizer se é sincero o sofrimento ou se é drama ou se no drama há ou não há sofrimento? Enquanto humanos, somos seres marcados pela expectativa do outro. Depositamos boa parte da nossa felicidade e do nosso movimento na vida em atender a essa expectativa dos outros. Há um movimento de atendimento a essa expectativa em ambos os lados: de quem segue e de quem é seguido. De quem deixa ou não os likes e de quem recebe ou não os likes. 

Quem é o que segue nas redes? Será que quem está nas redes não sabe onde está? Que ainda não sabe que lugar é esse de conexão humana? Digo conexão, pois a conexão é mais precária do que a relação, do que o encontro. Ambos, conexão e encontro, exigem trocas mais profundas: falar e escutar, dialogar, conflitar, errar, acertar, perdoar, romper.  Há ainda quem goste de drama, quem goste de sofrimento, quem goste de sofrer, quem goste de ver e de ser visto: masoquismo, sadismo, exibicionismo, voyeurismo, narcisismo são comportamentos já conhecidos e descritos pela psicanálise, pela psiquiatria e psicologia há bastante tempo.   

De que forma as pessoas que utilizam as redes sociais podem se proteger desse tipo de conteúdo e utilizar esse canal com mais qualidade? 

Da mesma forma que fazemos isso no mundo não virtual. Desde muito tempo ensinamos às crianças a tomarem cuidado com estranhos, a aprenderem a observar as pessoas, a não se deixarem enganar por balas, por convites de passeio, por brincadeira ou outros atrativos.  

É uma posição infantilizadora se deixar levar por alguém ou por algo que não tenho relações de profundidade ou que não observei o suficiente e não busquei informações adicionais para conhecer. É necessário se perguntar: com quem ou o que eu estou relacionando ou eu estou me posicionando? O fato de ser público, famoso, conhecido pela mídia ou seguido por muitos não quer dizer que seja conhecido, íntimo ou idôneo. 

Há que se considerar também a proliferação dos “curandeiros, dos feiticeiros, dos mágicos” que oferecem cura, tratamento, atendimento e um tipo de ajuda e apoio sem as qualificações devidas. Sejam elas de formação, de conhecimento e de experiência para tal. 

A era da informação traz muitos ganhos para a sociedade. Além da possibilidade de aumento de conhecimento, de verticalização das relações, de formação de redes de ajuda e de apoio, traz também seus problemas, seus efeitos colaterais, seus mal-estares. As fake news estão aí e vão permanecer, inclusive no campo dos sentimentos e das intenções humanas. Cabe a cada um e a todos nós nos responsabilizarmos pelo que publicamos, pelo que compartilhamos e pelo que acessamos. Cabe a cada um que decide por esse tipo de convivência se responsabilizar por checar a origem e a veracidade das informações, o tipo de laço que forma, os modos de vínculo que estabelece e que tipo de proximidade mantém. 

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